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quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

O egoísmo

José Argemiro da Silveira

de Ribeirão Preto, SP

“A estes doze enviou Jesus, dando-lhes as seguintes ordens: Não vos desvieis para a estrada das nações, e não entreis em cidade samaritana; mas ide antes continuamente às ovelhas perdidas da casa de Israel” - Mateus, cap. 10, vs. 5 e 6

Chama a atenção o fato de Jesus recomendar aos discípulos “não pegarem a estrada das nações”, em outras versões consta a instrução “para não irem aos gentios”. Acrescenta - “não entreis em cidade samaritana”. Por que a preferência para “as ovelhas perdidas da casa de Israel?” Há quem entenda que Israel era o povo escolhido e por isso tinha a preferência. Mas se Jesus, em outra parte do evangelho afirma que “das ovelhas que o Pai Lhe confiou nenhuma se perderá”, e sabemos que essas “ovelhas” são a humanidade inteira; e ainda Ele prevê que haverá “um só rebanho e um só pastor”, como entender o texto citado de início?

Certamente, no início da tarefa dos apóstolos eles ainda não estavam preparados para divulgar os ensinos em outras nações, onde, por certo, as dificuldades seriam maiores. Era necessário um preparo, um treinamento, e para isso era preciso começar “pelas ovelhas perdidas da casa de Israel”, ou seja, em suas próprias cidades, onde havia melhores possibilidades de êxito. Mais tarde, Jesus chama Paulo de Tarso, na estrada de Damasco. Paulo recebe a tarefa de ir aos gentios, tarefa difícil, mas ele estava preparado. Conhecia bem a Lei, sabia falar vários idiomas, estava preparado para a missão.

Isto nos leva a refletir que, para realizar tarefas importantes, precisamos nos preparar devidamente, Se não estamos em condições de realizar trabalhos de maior vulto, devemos realizar os encargos menores, mais compatíveis com nossas possibilidades, enquanto vamos nos exercitando para, um dia, desenvolver trabalhos de mais significado. Se estou com minha caneca vazia, não consigo dar de beber ao meu próximo. Se ainda não consegui certo equilíbrio, harmonia interior, convicção no que creio e falo, como passar uma mensagem de esperança, de confiança e de bom ânimo ao meu semelhante? As pessoas demonstram dificuldades para os trabalhos pequenos, os chamados “servicinhos”, e que são muito importantes. E todos temos uma tarefa importante, difícil, que é vencer a nós mesmos. Nossas paixões inferiores, o melindre, a dificuldade de relacionamento, o orgulho, o egoísmo. Na verdade, nossa tarefa mais importante, e mais difícil, é nossa própria transformação para melhor. Mudar a nós mesmos, afeiçoando-nos aos ensinos que já aceitamos teoricamente, esse o trabalho difícil. Primeiro requer humildade para reconhecer que precisamos mudar. Se o doente não se reconhece como tal, não procura o médico. Conseqüente, não se trata, e a enfermidade não é debelada. Ensinamento muito claro do Espiritismo é este: Todos necessitamos de evolução espiritual, subir os degraus da escada do progresso. Estamos num mundo pouco evoluído, e somos Espíritos que estamos muito longe dos patamares mais elevados da escala espiritual. Entretanto, mesmo com a clareza dos ensinamentos, muitos, ao que parece, se julgam sábios e bons, senão perfeitos, pelo menos quase. Ouvíamos há poucos dias uma irmã, espírita, que conhece a Doutrina, mas não participa de nenhum grupo de trabalho, não frequenta centro espírita, porque os dirigentes, os expositores, os que militam na Doutrina, no entender dela, não estão em condições de divulgarem os ensinamentos, A pessoa exige perfeição dos outros, mas não reflete que ela também carrega imperfeições. Se quero chegar a um determinado ponto de uma cidade que não conheço, e se peço informação a alguém, por telefone, para que ela possa me orientar, necessito dizer a ela onde me encontro. Se eu não sei onde estou, fica difícil o outro me ensinar o caminho. Se não reconheço minhas necessidades evolutivas, fica difícil realizar mudanças no meu íntimo. A subida da escada evolutiva é difícil porque além de nossas limitações, da bagagem que trazemos do passado (o inconsciente?), recebemos as influências do meio em que atuamos, influências negativas porque a maioria também é pouco espiritualizada. Essa influência, como sabemos, vem não só dos companheiros de jornada terrena, mas também do plano espiritual. Para vencermos os leões do orgulho e do egoísmo temos que travar verdadeira batalha conosco mesmo. Certa feita alguém perguntou ao Francisco C. Xavier se ele temia alguma coisa e ele respondeu que sim. Temia os monstros que temos de vencer e que estão em nós mesmos: são as paixões inferiores. As tentações do mundo existem porque encontram ressonância em nós. Na pergunta 913 de O Livro dos Espíritos, Kardec indaga qual o vício mais radical, isto é, que tem mais raízes, e conseqüentemente mais difícil de ser erradicado. Resposta: o egoísmo. E como combater o egoísmo? Atacando os filhos dele, ou seja, a impaciência, o desejo de privilégios, o melindre, a intolerância, a dificuldade de aceitar as outras pessoas como são. Devemos entrar na fila como todos, sem disputar tratamentos especiais, não nos consideramos melhores, nem mais sábios do que os outros. “Saber que não sabemos”, conforme falou o sábio da antiguidade. Se sabemos um pouquinho, isto é quase nada face ao muito que ainda precisamos saber. Os instrutores espirituais ensinam que, para combater o egoísmo, devemos cultivar as virtudes opostas a ele, ou seja, o altruísmo, o desapego, a humildade, a tolerância. Aprendendo a amar estaremos combatendo o egoísmo. Necessário perseverança, continuidade do esforço, paulatinamente, como uma escada que se sobre degrau a degrau. Façamos como ensina Santo Agostinho: levantamentos diários, para verificar se estamos melhorando. Lembra André Luiz: “O dever do espírita é tornar-se progressivamente melhor. Útil, assim, verificar, de quando em quando, com rigoroso exame pessoal, a nossa verdadeira situação íntima. Espírita que não progride durante três anos sucessivos permanece estacionário” (Opinião Espírita, cap. 1)

(Jornal Verdade e Luz Nº 192 Janeiro de 2002)

Fonte: http://www.espirito.org.br/portal/artigos/verdade-e-luz/o-egoismo.html


quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Prejuízos do egoísmo


Orson Peter Carrara
A sempre fecunda e abundante fonte de pesquisa que se constitui a Revista Espírita, lançada por Allan Kardec em 1858, apresenta preciosidades para o estudo e entendimento das lições de Jesus e da Doutrina Espírita.
Estando sempre envolvido com suas páginas para matérias desta seção da RIE, vamos descobrindo tesouros esquecidos que merecem divulgação para ampliar o universo das reflexões.
Pois bem, na edição de setembro de 1865, Kardec publicou uma matéria intitulada Um Egoísta, apresentando um estudo espírita moral, como ele mesmo qualificou. Trata-se de um relato apresentado por um de seus correspondentes que comenta sobre a existência de um moço que morava com sua velha tia, que muito o amava.
Ocorre, porém, que o comportamento do moço, em relação à tia, era de completa indiferença quanto a poupar-lhe esforços e sacrifícios, pois que “Ele não arredava um móvel em casa, como se tivesse criados às suas ordens; até se previsse algum penoso serviço excepcional, arranjava um pretexto para se abster, temeroso que lhe pedissem uma ajuda, que não poderia recusar. (...) era insensível (...)”, como consta do texto original da Revue.
Apesar do comportamento, “Era espírita e, sob o domínio dessa crença se melhorou, posto não a tivesse aproveitado tanto quanto poderia tê-lo feito, devido à sua inteligência (...)”. Devido, porém, aos esforços contínuos e sacrificiais, a velha tia adoeceu, desenvolvendo uma hérnia muito grave, que aumentou seu sofrimento. Após relativo tempo, porém, o moço sofreu um acidente e desencarnou.
Kardec, após tomar conhecimento do fato pelo relato recebido pelo correspondente, resolveu evocar o moço e não conseguiu, devido às precárias condições do espírito, mas recebeu valiosa orientação assinada por Vosso Guia Espiritual, que está na íntegra publicada na edição referida. O texto é de uma clareza meridiana. Transcrevemos trechos parciais:
a) “(...) Neste momento está muito perturbado pelos pensamentos que o agitam. Vê sua tia e a doença que ela contraiu devida às fadigas corporais e da qual morrerá. Eis o que o atormenta, pois se considera o seu matador. Como efeito o é, pois podia poupar-lhe o trabalho que será a causa de sua morte. É para ele um remorso pungente que o perseguirá por muito tempo, até que tenha reparado a sua falta.(...)”
b) “(...) Para seu castigo, deve vê-la morrer em conseqüência de sua indiferença egoísta, porque sua conduta é uma variedade de egoísmo (...)”
O Espírito sugere e mesmo solicita que o grupo ore pelo espírito, para ajudá-lo a superar o desespero em que se encontrava, mas Kardec pondera se será levado em conta a correção de outros defeitos, que o moço conseguiu por força do conhecimento espírita, e se isto não abrandaria sua situação. Eis trechos parciais da resposta:
a)“Sem nenhuma dúvida, essa melhora lhe é levada em conta, pois nada escapa ao olhar perscrutador da divina providência. Mas eis de que maneira cada boa ação ou má ação tem suas conseqüências naturais, inevitáveis, conforme a palavra do Cristo: ‘A cada um segundo as suas obras’, ou seja, o que se corrigiu de algumas falhas se poupa da punição que as mesmas teriam acarretado e recebe, ao contrário, o prêmio das qualidades que as substituíram; mas não pode escapar às conseqüências dos defeitos que persistem. (...)”
b)“(...) Meus amigos, o egoísmo é o que melhor se vê nos outros, porque a gente sente o seu contragolpe e porque o egoísta nos fere; mas o egoísta encontra em si mesmo sua satisfação, razão por que dele não se apercebe. O egoísmo é sempre uma prova de secura do coração; estiola a sensibilidade para os sofrimentos alheios. (...)”
c)“(...) do egoísta não espereis senão a ingratidão (...) Só age por outro quando forçado; nunca espontaneamente (...)”
d)“(...) o egoísmo é o verme roedor da sociedade (...)”.
Lição viva para pensar! E nos motivar inclusive para um estudo complementar em O Céu e o Inferno, exatamente no capítulo VII em que Kardec publicou o magistral Código Penal da Vida Futura, um resumo da lei quanto à posição dos espíritos após a desencarnação ou no que respeita ao futuro da alma, fruto da observação de depoimentos trazidos pelos próprios espíritos.
É notório considerar como de grandes prejuízos para a alma humana e para a sociedade em geral, os efeitos do egoísmo. Conforme os próprios espíritos declararam, o egoísmo é o vício que se pode considerar como o mais radical (questão 913 de O Livro dos Espíritos). E vão além, declarando que “Daí deriva todo mal. Estudai todos os vícios e vereis que no fundo de todos há egoísmo (...)” (transcrição parcial* da resposta à questão citada neste parágrafo).
O exemplo trazido por Kardec em sua Revue é localizado, envolveu duas pessoas. A velha tia era obrigada a cortar lenha para sobreviver e tudo mediante a indiferença do sobrinho. Embora seja um exemplo do passado (hoje dificilmente é preciso cortar lenha), ele pode ser trazido para os dias atuais e servir como parâmetro para uma automedição de como estamos agindo no relacionamento. Até como forma de avaliarmos os progressos neste campo, para não carregarmos conosco o arrependimento doloroso de um comportamento egoísta e indiferente.
Desafio para todos nós, espíritos em aprendizado.
*edição FEB, tradução Guillon Ribeiro.
Matéria publicada originariamente na Revista Internacional de Espiritismo, edição de junho de 2004.