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quarta-feira, 28 de maio de 2014

Por que os Médicos Hoje Acreditam que a Fé Cura?

Floriano Legado do Amaral

Deparamos com esta questão na revista "Seleções", edição de agosto de 2001, página 43, e nos apressamos em conhecer o conteúdo da matéria, elaborada por Lydia Strchl. E confirmamos o que já havíamos lido em outras fontes: Hoje, os médicos, apoiados em pesquisas que vêm sendo feitas em vários hospitais do mundo estão descobrindo que a fé realmente cura, ou pelo menos ajuda em muito os tratamentos médicos. Estamos certos de que uma olhadela nessa matéria ajudará muita gente que ainda vê a oração como simples ato místico, sem fundamento científico. Ei-la:
Um grupo de alunos de medicina vestidos de branco cerca um leito no Hospital Universitário de Georgetown. O paciente deitado na cama, Tom Long, fora esfaqueado no coração, estomago e, baço durante uma briga doméstica. Depois de sete cirurgias, foi liberado do hospital, com uma grande ferida no abdômen coberta por um enxerto cutâneo. Decorrido um ano, a lesão ainda não tinha cicatrizado. Assim, em dezembro de 1999, ele voltou ao hospital para se submeter à operação que por fim lhe fechou o abdômen.
Long relata, como já fez diversas vezes, a sensação de ser uma das poucas pessoas a sobreviver a uma facada no coração. Rhegar Foley, aluna do primeiro ano responsável pela entrevista, pergunta com nervosismo:

- Onde encontrou forças?

- É uma boa pergunta - diz Long, de repente vendo Rhegar como uma pessoa, e não mais apenas uma profissional de saúde.

Ele conta que deve a vida a algo mais do que os excelentes cuidados médicos que recebeu. Deve-se a Deus.

Faz-se silêncio. Os alunos cuja atenção havia se dispersado durante o relato histórico médico do paciente ficam alerta. Começam a surgir perguntas.

- A religião e a medicina têm uma relação inseparável - afirma Rhegar. - Vemos isso todos os dias. Mas não é apenas a religião organizada que dá força a alguns pacientes. - Todo mundo tem espiritualidade - diz ela. É isso, basicamente, que dá sentido à vida.

A ligação entre o corpo e espírito pode ser milenar, mas, conforme a cura foi se tornando uma ciência, os clínicos ocidentais se afastaram da espiritualidade e da fé religiosa. Agora, as necessidades dos pacientes, combinadas às pesquisas científicas que relacionam fé e boa saúde (ver Box) vêm pouco a pouco convertendo uma comunidade médica cética. Publicações científicas e livros abordam o assunto. Um número cada vez maior de médicos freqüenta conferências sobre fé e cura.

"Acho tudo isso parte de um retorno generalizado à espiritualidade", diz Carol P. Hausmann, psicóloga clínica que há seis anos fundou a Rede de Cura Judaica de Washington. A organização mantém grupos de apoio espiritual para pessoas enfermas. "A geração que agora está na meia-idade vê os pais envelhecidos, vê a si mesma envelhecer e busca profundidade e significado."

A ciência por trás da religião

Uma série de estudos recentes vem corroendo a parede entre igrejas e laboratórios. Essas pesquisas demonstraram, por exemplo, que aqueles que freqüentam serviços religiosos mais de uma vez por semana vivem, em média, sete anos mais do que os que não o fazem. Um estudo realizado em 1998 pelos médicos Harold Koenig e David Larson, do Centro Médico da Duke University, mostrou que as pessoas que freqüentam a igreja todas as semanas tinham menos probabilidade de serem internadas e, se fossem, não passavam tanto tempo no hospital quanto aquelas que iam à igreja com menos freqüência.

Essas correlações podem ser explicadas em parte pelo fato de aqueles que freqüentam a igreja terem uma probabilidade menor de fumar, beber ou envolver-se em comportamento sexual de risco, e mais chances de contar com uma rede de apoio social. No livro The faith factor: proof of the healing power of prayer (O fator fé:do poder de cura da oração) o clínico Dale Matthews destaca que a religião organizada oferece uma comunidade que faz e precisa que façam por ela - assar biscoitos, visitar pessoas, ajudar. E as pesquisas demonstram que pessoas isoladas vivem pior do ponto de vista psicológico e físico.

Alguns pesquisadores, porém, como o psiquiatra Martin W. Jones, cuja disciplina na Faculdade de Medicina da Universidade de Howard estuda a correlação entre a fé e cura, alegam que uma explicação completa sobre o efeito positivo da espiritualidade na saúde não é essencial.

"Não entendemos o mecanismo de muitas drogas. Sabemos apenas, pela observação de causa e efeito, que funcionam", diz o Dr. Jones. "Da mesma forma, conseguimos ver os efeitos da consciência espiritual de uma pessoa sobre a evolução de seu estado; portanto, por que não usá-la? É como o placebo", acrescenta. "Por que funcionou? Fé. É uma força muito poderosa.

Assim como a culpa. Richard P. Sloan, professor do Colégio e Cirurgiões da Columbia, opõe-se a que os médicos se "misturem" com as crenças religiosas dos pacientes. Para ele, se a medicina assumier a posição de que a devoção é saudável, o fato de alguém adoecer ou não se recuperar poderia ser considerado produto da falta de religiosidade.

Na verdade, mesmo os médicos que incluem a espiritualidade em sua maleta aceitam a importância de usar a fé apenas como um complemento à assistência médica e somente se o paciente estiver aberto a falar sobre suas crenças.

Salto da fé

Em 1996, Joe Semmes, então médico da Emergência do Hospital de Arlington, na Virgínia, recebeu o diagnóstico de câncer do pâncreas, com uma taxa de sobrevida em cinco anos de 50%. Semmes, hoje com 51 anos e pai de quatro filhos, embora de família católica, não se confessa desde a adolescência. Ele admite que não tinha muita paciência para conceitos como equilíbrio e energia. Entretanto, quando a mulher, Elonide, uma pragmática empresária, pediu às pessoas que rezassem por ele, nem discutiu. Recentemente Semmes lera sobre o uso da meditação ou da oração contemplativa para acalmar a mente. "apesar das controvérsias sobre o assunto, existem evidencias na literatura de que o estresse prejudica o sistema imunológico. Achei que tudo que pudesse fazer para ajudar meu sistema imunológico era válido."

Na véspera da cirurgia exploradora do marido, Elonide pediu um ritual de cura em sua igreja. "As pessoas colocaram as mãos sobre mim e cantaram hinos", conta ele. "Foi incrível o poder daquela comunidade."

O tumor de Semmes, que envolvia vasos sangüineos vitais, não pode ser retirado por cirurgia. Mas a radioterapia e 36 semanas de quimioterapia ajudaram reduzi-lo, o Semmes pediu aos cirurgiões que tentassem removê-lo. Em janeiro de 1998, uma cirurgia de 11 horas extirpou o tumor.

Hoje, cinco anos após o diagnóstico inicial, Joe Semmes não apresenta evidência de doença ativa e diz que tem "boa energia", embora a cirurgia tenha retirado a maior parte de seu pâncreas.

"Não quero que pensem que melhorei por causa das orações", diz Semmes. "Foram a radiação e a cirurgia. Mas fiquei mais otimista. A cura é um movimento em direção à plenitude - ter consciência de onde você se encontra, estar conectado aos outros e amar. O crescimento espiritual no momento do colapso físico é incrível. Um despertar."

Prescrição: rezar?

No início de sua carreira, na década de 60, o Dr. Matthews começou a perceber que seus pacientes queriam dele algo mais do que o diagnóstico físico e o tratamento: alguns, cientes da intensa fé do médico, queriam que ele rezasse com eles.

"Eu não tinha um modelo. A inclusão da espiritualidade em minha relação com os pacientes evoluiu enquanto eu ouvia, prestava atenção e descobria que as pessoas contavam com sua fé."

Filho de médico de uma cidade pequena e neto de missionário, o Dr. Matthews é clínico geral em Washington. Usa estetoscópio, solicita radiografias e prescreve Prozac, quando necessário. No entanto, ao colher a história clínica dos pacientes, constuma se informar sobre seu grau de crença religiosa.

"É como se ele oferecesse um apoio mais profundo", diz um dos pacientes do Dr. Matthews, um consultor em biotecnologia com uma doença autoimune crônica. Aos 47 anos, já passou por cirurgia de substituição de uma válvula aórtica, recebeu um diagnóstico de doença de Crohn intestinal e vive com artrite nas articulações.

Conformar-se com uma doença degenrativa e potencialmente fatal não é fácil. Ele diz que sobreviveu aos últimos seis anos tornando-se cada vez mais espiritualizado. O Dr. Matthews às vezes inclui nas receitas trechos das escrituras e recomenda locais que dão apoio espiritual.

"Isso tem certa magia", diz o paciente, cujo quadro se estabilizou. Apesar de recentes contratempos, ele afirma: "Minha fé serve como ponto de equilíbrio. Assim, não sinto a doença como um fardo."

Doutor, cura-te a ti mesmo

A medicina tradicional talvez esteja abraçando a espiritualidade porque pode se beneficiar da crença. "Estamos em uma época crítica.", diz a Dra. Christina Puchalaki, professora-assistente de medicina da Universidade George Washington. "Os médicos têm por dever colocar o bem do paciente acima do próprio bem. É uma vocação muito espiritual. Mas, com a transformação da medicina em negócio, corremos o risco de perder o sentido de propósito e significado."

Médicos e pacientes, porém, continuam a expressar o desejo de manter a fé. Em 1996, a Associação de Faculdades Médicas Americanas começou a entrevistar advogados de pacientes, médicos, executivos de companhias de seguro, estudantes de medicina e membros da comunidade para o seu relatório sobre objetivos das escolas médicas. Como temas significativos, surgiram questões culturais, espirituais e relacionadas ao fim da vida. As faculdades americanas estão respondendo à demanda: em 1992, apenas umas poucas incluíam a espiritualidade em suas disciplinas: hoje, cerca de 50 das 125 escolas médicas dos Estados Unidos têm disciplinas dedicadas ao assunto.

Na Universidade de Georgetown, entre cursos de bioquímica, os alunos do primeiro ano de medicina cursam uma disciplina denominada Tradições Religiosas na Assistência à Saúde. Ela aborda a correlação entre espiritualidade e saúde, e ensina sobre as principais religiões do mundo, de uma perspectiva médica.

Equipes de médicos e teólogos apresentam as visões das diversas fés: judaica, budista, islâmica, hindu, católica romana e protestante. Os alunos tomam conhecimento de que algumas religiões influem em decisões sobre eutanásia, transfusão de sangue, uso de medicamentos e tecnologias. Aprendem a avaliar as crenças do paciente de maneira objetiva e não ameaçadora. E ainda, a utilizar a ajuda religiosa, como por exemplo, o capelão do hospital, se as necessidades do paciente assim o exigirem.

"Os alunos estão ditando o rumo dessas mudanças", diz M. Brownell Aderson, da Associação de Faculdades Médicas Americanas. "Quem faz uma faculdade de medicina quer cuidar das pessoas. Percebe que a tecnologia é ótima, mas também quer ser capaz de se comunicar com os pacientes para poder trata-los. Quer fazer isso com alma."

Tratamento integral

Ao começar a perder a voz, Diane Rehm, apresentadora de um programa no rádio, fez exames e tratamentos, tentou remédios, consultou especialistas. Entretanto, em 1998, depois de sete nos de decepções, sua voz ficou tão trêmula que Diane foi forçada a parar de trabalhar.

Assim, quando um amigo a convidou a se submeter a um ritual de cura, Diane, que já se fiava em orações para obter forças em épocas melhores, concordou. Numa capela, o amigo, um bispo, celebrou com um colega um ritual de cura secular, colocando as mãos na cabeça de Diane e murmurando orações por sua voz. Quando terminou, a voz não mudara. Mas a radialista se sentia melhor.

"Se posso dizer que fui atingida por um raio de energia", indaga Diane. "Não, apenas me senti em paz. E tive a sensação de que e que diziam e faziam me ajudaria."

Diane começou a receber o ritual de cura semanalmente em sua igreja. Não desistiu, porém, de procurar auxílio médico. Dois meses depois, Paul Flint e Stephen Reich, médicos do Johns Hopkins, diagnosticaram uma distonia espamódica, que afetava os músculos que produzem som. Recomendaram injeções periódicas para uma paralização temporária da musculatura vocal hiperativa. Diane também se submeteu à acupuntura. Até o momento, o tratamento está indo bem e ela voltou a trabalhar.

"A cura pode vir na forma de aceitação, num relacionamento diferente consigo mesmo e com os outros, mantendo uma sensação de paz diante da aflição", reflete Diane. Ela enfatiza, como muitos outros, que a fé é um complemento ao tratamento médico.

"A doença tem um base física", diz Jones, da Universidade de Howard, ele mesmo um sobrevivente do câncer, "mas há uma hierarquia: o nível físico, o emocional, o intelectual e a espiritual." Jones antevê uma sutil mudança na prática médica, do tratamento da doença para o tratamento do indivíduo como um todo.

"No que se refere às doenças, a ciência tem sido incrível", diz a Dra. Christina, que também é diretora de ensino do Instituto Americano de Pesquisa em Assistência à Saúde. "Aumentamos a expectativa de vida em quase dois terços no século 20, sobretudo graças à ciência", acrescenta ela. "Mas atribuímos esse progresso a um só aspecto. E a ciência não é o quadro inteiro. Há um elo de confiança que pode não se formar quando nos concentramos apenas no lado físico do paciente."

Em outras palavras, não se trata da cura pela fé, mas da fé na cura.

Ação da prece, segundo o Espiritismo

"A prece (cf. item 9 do capítulo XXVII do Evangelho Segundo o Espiritismo) é uma evocação. Através dela, entra-se em contado, por pensamento, com o ser ao qual se dirige. Ela pode ter por objeto um pedido, um agradecimento ou uma glorificação. Pode-se orar por si mesmo ou por outro, pelos vivos ou pelos mortos. As preces dirigidas a Deus são ouvidas pelos Espíritos encarregados da execução de suas vontades; as que são dirigidas aos bons Espíritos são reportadas a Deus. Quando se ora a outros seres que não a Deus, aqueles funcionam apenas como intermediários, intercessores, pois nada pode ser feito sem a vontade de Deus.

O Espiritismo torna compreensível a ação da prece, explicando o modo de transmissão do pensamento - vindo o ser rogado ao nosso apelo, ou indo nosso pensamento até ele. Para se ter idéia de que se passa em tal circunstância, é preciso imaginar todos os seres, encarnados e desencarnados, mergulhados no fluido universal que ocupa o espaço, assim como, aqui, estamos mergulhados na atmosfera. Esse fluido recebe um impulso da vontade - é o veículo do pensamento, como o ar é o veículo do som. Com a diferença de que as vibrações do ar são circunscritas, enquanto as do fluido universal estendem-se infinitamente. Portanto, quando o pensamento é dirigido a um ser qualquer, na Terra ou no espaço, de encarnado e desencarnado, ou de desencarnado a encarnado, uma corrente fluídica estabelece-se de um a outro, transmitindo o pensamento, como o ar transmite o som.

A energia da corrente está em razão da energia do pensamento e da vontade. Assim, a prece é ouvida pelos Espíritos, em qualquer lugar que se encontrem; assim, os Espíritos comunicam-se entre si, transmitem-nos suas inspirações, e assim se estabelecem relações à distância entre encarnados e desencarnados.

Essa explicação é sobretudo para os que não compreendem a utilidade da prece puramente mística. Não tem por objetivo materializar a prece, mas tornar-lhe o efeito inteligível, mostrando que ela pode ter ação direta e efetiva. Não se torna, segundo essa explicação, menos subordinada à vontade de Deus, juiz supremo de todas as coisas, e o único que pode tornar eficaz a ação de qualquer prece.

Através da prece, o homem atrai o concurso dos bons Espíritos, que vêm apoiá-lo em suas boas resoluções, e inspirar-lhe bons pensamentos. Adquire, assim, a força moral necessária para vencer as dificuldades e reentrar no caminho reto, se dele se afastou; e também assim pode desviar de si os males que atrairia por sua própria falta. Um homem, por exemplo, vê sua saúde arruinada pelos excessos que cometeu, e arrasta, até o fim de seus dias, uma vida de sofrimento. Tem o direito de queixar-se se não obtêm a cura? Não, pois poderia ter encontrado na prece a força de resistir às tentações.

Dividindo em duas partes os males da vida, um dos males que homem não pode evitar, outra das tribulações das quais ele mesmo é a primeira causa, devido a sua incúria e a seus excessos, ver-se-á que essa última parte ultrapassa em grande numero a primeira. Portanto, fica bem evidente que o homem é autor da maior parte de suas aflições, e que se pouparia delas se agisse sempre com sabedoria e prudência.

É certo, também, que essas misérias são resultados de nossas infrações às leis de Deus, o que se observássemos pontualmente essas leis, seriamos perfeitamente felizes. Se não ultrapassássemos o limite do necessário na satisfação de nossas necessidades, não teríamos as doenças que são a conseqüência dos excessos, e as vicissitudes que acarretam essas doenças. Se puséssemos limites à nossa ambição, não temeríamos a ruína. Se não quiséssemos subir mais alto do que podemos, não teríamos a queda. Se fossemos humildes, não sofreríamos as decepções do orgulho humilhado. Se praticássemos a lei de caridade, não seriamos maledicentes, nem invejosos, nem ciumentos e evitaríamos querelas e dissensões. Se não fizéssemos mal a ninguém, não teríamos vinganças, etc.

Admitamos que o homem não possa nada em relação aos males, e que toda prece seja inútil para evitá-los; já não seria bastante libertar-se de todos os males que procedem do próprio comportamento? Ora, nesse ponto concebe-se facilmente a ação da prece, pois ela tem como efeito atrair a inspiração salutares dos bons Espíritos, de perdir-lhes a força para resistir aos maus pensamentos, cuja execução nos pode ser funesta. Nesse caso, não é o mal que eles afastam, é a nós mesmos que afastam do pensamento que pode causar o mal: em nada impedem os decretos de Deus., e não suspendem o curso das leis da natureza, mas é a nós mesmos que impedem de infringirmos essas leis, orientando nosso livre-arbítrio. Mas o fazem sem nosso conhecimento, de uma forma oculta, para não sujeitar nossa vontade. O homem encontra-se, pois, na posição daquele que solicita bons conselhos e os põe em prática, mas que sempre é livre para segui-los ou não. Deus quer que seja assim, para que homem tenha responsabilidade por seus atos, e para permitir-lhe o mérito da escolha entre o bem e o mal. É assim que o homem sempre pode estar certo de obter, se pedir com fervor, e sobretudo nesse aspecto pode aplicar-se estas palavras: "Pedi e obtereis".

A eficácia da prece, mesmo reduzida a essa proporção, não teria um resultado imenso? Estava reservado ao Espiritismo a tarefa de provar- nos a ação da prece, pela revelação das relações que existem entre o mundo corporal e o mundo espiritual. Mas seus efeitos não se limitam a isso.

A prece é recomendada para todos os Espíritos. Renunciar à prece é ignorar a bondade de Deus; é rejeitar sua assistência para si mesmo, e, para os outros, o bem que se lhes pode fazer...

(Publicado no Correio Fraterno do ABC Nº 368 de Setembro de 2001)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O Espiritismo é uma religião?

ALLAN KARDEC

“[...] Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; com efeito, é aí que podem e devem exercer a sua força, porque o objetivo deve ser a libertação do pensamento das amarras da matéria. Infelizmente, a maioria se afasta deste princípio à medida que a religião se torna uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado em meio à multidão e só pensa no céu para si mesmo.

Por certo não era assim que o entendia Jesus, ao dizer: “Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei entre elas.” Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum; mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ações. Mentem os egoístas e os orgulhosos, quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos.

[...} Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É nesse sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma idéia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política. Ora, os homens podem filiar-se, por interesse, a um partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo, quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; persiste à custa dos maiores sacrifícios, e é a abnegação dos interesses pessoais a verdadeira pedra-de-toque da fé sincera. Todavia, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é, não obstante, respeitável, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de razão. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se enganou, do que persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso, e para não se dar um desmentido a si próprio, o que acusa mais obstinação do que firmeza, mais orgulho do que razão, e mais fraqueza do que força. É mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por seu próprio exemplo.

O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.

Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.

Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou.

Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.

As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isto, sejam tomadas por assembléias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia.

Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade.

A caridade é a alma do Espiritismo; ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes, razão por que se pode dizer que não há verdadeiro espírita sem caridade.

Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido; e se os Espíritos não cessam de pregá-la e defini-la, é que, provavelmente, reconhecem que isto ainda é necessário.

O campo da caridade é muito vasto; compreende duas grandes divisões que, em falta de termos especiais, podem designar-se pelas expressões Caridade beneficente e caridade benevolente. Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcional aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de todos, do mais pobre como do mais rico. Se a beneficência é forçosamente limitada, nada além da vontade poderia estabelecer limites à benevolência.

O que é preciso, então, para praticar a caridade benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo. Ora, se se amar ao próximo tanto quanto a si, amar-se-o-á muito; agir-se-á para com outrem como se quereria que os outros agissem para conosco; não se quererá nem se fará mal a ninguém, porque não quereríamos que no-lo fizessem.
Amar ao próximo é, pois, abjurar todo sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, numa palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar aos inimigos e retribuir o mal com o bem; é ser indulgente para as imperfeições de seus semelhantes e não procurar o argueiro no olho do vizinho, quando não se vê a trave no seu; é esconder ou desculpar as faltas alheias, em vez de se comprazer em as pôr em relevo, por espírito de maledicência; é ainda não se fazer valer à custa dos outros; não procurar esmagar ninguém sob o peso de sua superioridade; não desprezar ninguém pelo orgulho. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro espírita, como do verdadeiro cristão; aquela sem a qual aquele que diz: Fora da caridade não há salvação, pronuncia sua própria condenação, tanto neste quanto no outro mundo.

[...] Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na eqüitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; praticar a caridade em pensamentos, em palavras e obras na mais larga acepção do termo; esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre-exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.

Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, da inveja e de todas as imperfeições da Humanidade.

O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a sua felicidade aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que têm. Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras.
[...]

>    (Texto de Allan Kardec lido na Sessão Anual Comemorativa dos Mortos, no dia 1º. de novembro de 1868. Transcrição parcial, Revue Spirite, dezembro de 1868).